quinta-feira, 26 de novembro de 2009
terça-feira, 17 de novembro de 2009
Poeira ao vento

O condomínio em que morei quando criança era no centro da cidade, cercado por agências bancárias, pontos de ônibus, lojas e farmácias. Não me esqueço também do estacionamento, com vagas cobertas de zinco e algumas descobertas. Era uma guerra para conseguir parar na coberta. Não havia portão, os portões eram supérfluos. Gostava de brincar até tarde da noite, e minha mãe ficava brava se eu subisse depois das nove e meia. Eu corria o tempo todo e, ao fim da brincadeira, estava suado, coração a mil, morto de fome. Tomava banho e jantava. Muitas vezes, esperava meu pai voltar do trabalho. Ele sempre precisou viajar, e não tinha um expediente fixo. Quando ele chegava ouvia o barulho das chaves, assim que pulava do elevador. E eu pulava do sofá. Gostava de ver mamãe preparar o seu jantar. Ele gostava de sardinhas com tomate picado e azeite. Eu, mesmo sem fome, fazia de conta que queria comer, só para acompanhar o velho que, na época, nem era tão velho assim. Talvez fosse a maneira mais eficaz de aproveitar o tempo que podia ver os dois em casa, juntos. Em muitas ocasiões, ficava vinte, trinta, até quarenta dias sem ver o pai. Os dias eram vividos em função da chegada da noite, quando, de longe, recebíamos um telefonema de saudades. O tempo de conversa era curto. O interurbano furava os bolsos - deles.
Chegava, então, a hora de dormir. Beijava o rosto de cada um e, automaticamente virava o meu, a espera da retribuição. Do quarto eu percebia a luz azulada da televisão. Aquilo me confortava, preparava o meu sono. Lembro ainda dos medos que sentia, em certas noites. Colocava-me deliciosamentre entre os dois, na cama de casal. E me sentia a criança mais corajosa do mundo. Mas um dia essa farra acabou. Afinal de contas, estava me tornando gente grande, e como bons pais, me ensinaram que não poderiam estar ao meu lado pela vida toda. Um dia, eu teria que sair de casa e abraçar (ou pelo menos tentar) a minha vida, o meu mundo. Foi o primeiro grande choque que levei. Senti-me desprotegido, mas era necessário. Anos mais tarde fiz o mesmo com meu filho.
Mamãe era mais enérgica. Ou melhor: ao lado dela, eu era libertino. Aos domingos gostava de andar de carro pela cidade, depois do almoço com a vovó. Ela sempre voltava ao passado ao tomar o rumo do bairro em que nasceu e cresceu. Aos sábados ia jogar bola com papai. Para ser sincero, ia assistir ao jogo dele. E como jogava bem. Até hoje me lembro de um dos gols mais lindos que vi na vida. Papai recebeu a bola no meio de campo, passou pelo adversário e, entre dois zagueiros acertou o ângulo. Golaço. Os jogadores aplaudiram a beleza de lance. Tenho quase certeza de que ele chutou com a perna esquerda. O mesmo ídolo que vi em campo, mais tarde estava bravo comigo. Eu havia trancado o carro com as chaves lá dentro. A minha vontade era de ir embora caminhando, para não ouvir a bronca. Mas respirei fundo e enfrentei o problema. Talvez tenha sido a primeira atitude de gente grande que tomei na vida. Neste dia fomos jantar no restaurante da Irene. Ninguém mais estava bravo.
Chegamos com a poeira, partimos com o vento. Hoje, passo em frente ao condomínio, percebo as mudanças e fico triste. Existem portões. Mas ainda consigo ouvir o som e ver um garoto correndo ali, depois das grades. É minha infância, presa lá dentro.
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
terça-feira, 3 de novembro de 2009
Mulher em lata

As palavras não vão expressar o meu descontentamento, mas cá estou, queimando miolos para tentar explicar uma decepção. Tenho recorrido a filmes antigos para conhecer mulheres novas. E, a cada atriz que me apresento, renasço no passado que só existe em minha mente. Falo de mulheres que o mundo apreciou, desejou, imortalizou.
Falo de Sophia Loren, de uma beleza à flor da pele que judia e acalenta corações rancorosos; falo de Jo Raquel Tejada, para nós Raquel Welch, a delicadeza aliada ao semblante da fatalidade, a superioridade que mete medo; Audrey Hepburn, menina-moça-mulher com quem, tenho certeza, já tive um caso. Falo das mulatas do Sargentelli, das deusas da pornochanchada; das amigas de nossas mães, para quem cresceu e virou homem até as décadas de 80, 90, sendo otimista. E tantas outras que, vivas ou mortas, rondam o imaginário dos homens e despertam a inveja das outras mulheres.
O passado tinha mais charme. Nosso presente está inundado na mesmice de silicones, mechas louras e corpos que cansaram de vomitar para alcançar a elegância das passarelas. Nos bares, boates, festas adolescentes, bancos, parques, praias, empresas, encontramos as mulheres enlatadas. Feitas sob medida para alimentar sonhos e despertar os uivos daqueles que fazem de um Big Mac, banquete. Beleza pura não se compra. É coisa divina. Está além do nosso alcance. O que se pode fazer, no máximo, é levitar na ilusão de bisturis mágicos. Assim, muitas tropeçam na tentação do nariz perfeito e jogam fora o que têm de melhor: a graça que só a diferença proporciona.
Um exemplo extremo da receita que desanda é o estrabismo. O estrabismo, aqui, diz respeito aos seios que se perdem no infinito - e não paralelamente. Seios indecisos, trôpegos. Abro parênteses com a gentil permissão do leitor para expor minha preferência: opto, sem refletir, por úberes que indicam o sul a mamilos que não levam a lugar algum; perdem-se na linha do horizonte, parecidos com os olhos do bebum de nossa rua.
Farei justiça com os reparos na hora certa. Há momentos e situações em que os avanços da medicina estética salvam o pelo da leoa. Lamento pelo abuso e repetição da técnica.
As flores mais raras estão longe dos experimentos científicos. Aprecio o belo e, em muitos casos, o belo também é falso; contudo, continua belo. Mas, inteligência e bom senso também têm seu charme. O lucro é maior apostando-se na peculiaridade; aliás, ganha-se em dobro: o dinheiro que iria pro doutor e o valor agregado diante da oferta de bonequinhas que fazem bico e perambulam como Paris Hilton.
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
Ingrata
A VOCAÇÃO
A mulher levantou-se da cama e entrou no banheiro.
Precisava se lavar. Sentia-se suja depois de fazer amor com o marido. Dizia que o amor conjugal cheirava colo da mãe.
Certa vez, o marido quis confirmar a suspeita que tinha.
Fechou os registros de água da casa inteira, e esperou a reação da esposa. Possuída por um asco indefinido, a mulher correu até a rua e permitiu-se lavar o meio das pernas na torneira do bar da frente. Isso ainda era melhor que sentir o resultado do orgasmo no vão. Foi vista e deixou-se ver. O dono do boteco, meio sem graça, desviou o olhar mas não pode evitar o pensamento: "ainda a faço minha". E viu a mulher se levantar, com a água escorrendo pelas pernas, e enxugar com o pano que sobrava da saia fina
Ao entrar em casa, o marido com ar de indignação. Ele quis saber qual era o motivo de tanta pressa para se limpar. Em vão.
Foram dormir.
Todo caso de amor inclui mentira. Verdadeiros casos de amor. Um relacionamento sem mentiras é, por si só, e desde o começo, falso. As mentiras garantem a paz.
Verdades podem ser nuas e cruas, e, às vezes, cruéis.
Foi durante o sono que os lábios da mulher se manifestaram para revelar uma dessas mentiras. Tornaram-se verdades cruéis.
Ela não sabia e não poderia saber: era monólogo para uma só audiência. Um contra um. Traída pelo subconsciente. O marido chorou e voltou a dormir.
A partir daí tudo mudou na vida do marido. Não conseguia mais trabalhar sem pensar nas palavras. Repetia, inúmeras vezes, consigo mesmo: "Não sou mulher de um só homem." Frase revelada na madrugada, durante o sono, em meio a lençóis e à luz da lua. A sua mulher pertencia a vários lares. E começou a reparar nas atitudes e hábitos dela. A cor dos batons que levava na bolsa, os presentes que ganhava fora de casa, o cheiro de sua pele ao chegar da rua. E por vezes e outras vezes, sentiu a repulsa da fêmea depois do coito. Um pavor daquilo que ele expelia nas ejaculações.
IDENTIDADE SECRETA
A mulher levantou-se da cama e não caminhou até o banheiro. Dirigiu-se, suja mesmo, até a janela para
receber ar fresco. O cliente estava prostrado na cama, suado, saciado de tanta carne. De cama em cama, várias vezes por dia, com vários homens diferentes, dominada por uma força que surgia e crescia dentro de si; que a domava e a amordaçava. Ironicamente, não sentia a urgência de se lavar. Pelo contrário, achava excitante manter-se porca e usada.
O marido jamais podia imaginar que o nojo não era do sexo. Ele era o motivo. Aceitava as prevaricações da mulher porque a amava. Parodiando: amava a ponto de negar-se, a ponto de anular o amor-próprio. Mas a falta de amor-próprio não significa apenas resignação.
Abre também espaço para um leque de pensamentos inconscientes de fuga e auto-defesa. Foi assim, em um desses momentos de suprema diminuição e fuga, que tentou a libertação.
A PROPOSTA
Foi direto:
-Quanto você quer?
A mulher lixava as unhas e, sem olhar:
-O que disse?
-Quanto você quer?
Ela parou, virou-se com cara de desdém e indagou novamente. Antes que terminasse, ouviu:
-Quanto você quer para se deitar comigo?
(Aqui o marido tremeu. Queria fugir. Mas foi forte. Sacrificou-se interiormente e
sentiu-se menor, menos importante e menos imponente do que era). Travou a mandíbula, mas não evitou a gargalhada infernal da esposa. E a resposta cortante:
-Com você eu transo por obrigação de esposa, e é bom que saiba: se dependesse da minha vontade, com você eu não transaria nem por dinheiro.
Foi ríspida porque se sentiu ofendida. Jamais brigaram.
Jamais discutiram. Mas ser chamada de puta dentro da própria casa, ela não podia
permitir.
A VOCAÇÃO
Fechou o zíper da mala e olhou, pela última vez, o quarto.
A vocação e o profissionalismo falavam mais alto. Teria sido egoísta? Ou teria sido injusta consigo mesma se sacrificasse a sua vocação para fazer um só homem feliz? Partiu sem deixar bilhete.
Quando o marido chegou, nada fez, até porque nada podia ser feito. Sabia-se só. O que fazer, se, não escolhendo a paixão, esta foi por alguém que não sabe amar? Pensava e compreendia. Amava tanto que perdoou. E desejou a felicidade que só os anjos sabem dar, ainda que em outros lençóis.
A mulher levantou-se da cama e entrou no banheiro.
Precisava se lavar. Sentia-se suja depois de fazer amor com o marido. Dizia que o amor conjugal cheirava colo da mãe.
Certa vez, o marido quis confirmar a suspeita que tinha.
Fechou os registros de água da casa inteira, e esperou a reação da esposa. Possuída por um asco indefinido, a mulher correu até a rua e permitiu-se lavar o meio das pernas na torneira do bar da frente. Isso ainda era melhor que sentir o resultado do orgasmo no vão. Foi vista e deixou-se ver. O dono do boteco, meio sem graça, desviou o olhar mas não pode evitar o pensamento: "ainda a faço minha". E viu a mulher se levantar, com a água escorrendo pelas pernas, e enxugar com o pano que sobrava da saia fina
Ao entrar em casa, o marido com ar de indignação. Ele quis saber qual era o motivo de tanta pressa para se limpar. Em vão.
Foram dormir.
Todo caso de amor inclui mentira. Verdadeiros casos de amor. Um relacionamento sem mentiras é, por si só, e desde o começo, falso. As mentiras garantem a paz.
Verdades podem ser nuas e cruas, e, às vezes, cruéis.
Foi durante o sono que os lábios da mulher se manifestaram para revelar uma dessas mentiras. Tornaram-se verdades cruéis.
Ela não sabia e não poderia saber: era monólogo para uma só audiência. Um contra um. Traída pelo subconsciente. O marido chorou e voltou a dormir.
A partir daí tudo mudou na vida do marido. Não conseguia mais trabalhar sem pensar nas palavras. Repetia, inúmeras vezes, consigo mesmo: "Não sou mulher de um só homem." Frase revelada na madrugada, durante o sono, em meio a lençóis e à luz da lua. A sua mulher pertencia a vários lares. E começou a reparar nas atitudes e hábitos dela. A cor dos batons que levava na bolsa, os presentes que ganhava fora de casa, o cheiro de sua pele ao chegar da rua. E por vezes e outras vezes, sentiu a repulsa da fêmea depois do coito. Um pavor daquilo que ele expelia nas ejaculações.
IDENTIDADE SECRETA
A mulher levantou-se da cama e não caminhou até o banheiro. Dirigiu-se, suja mesmo, até a janela para
receber ar fresco. O cliente estava prostrado na cama, suado, saciado de tanta carne. De cama em cama, várias vezes por dia, com vários homens diferentes, dominada por uma força que surgia e crescia dentro de si; que a domava e a amordaçava. Ironicamente, não sentia a urgência de se lavar. Pelo contrário, achava excitante manter-se porca e usada.
O marido jamais podia imaginar que o nojo não era do sexo. Ele era o motivo. Aceitava as prevaricações da mulher porque a amava. Parodiando: amava a ponto de negar-se, a ponto de anular o amor-próprio. Mas a falta de amor-próprio não significa apenas resignação.
Abre também espaço para um leque de pensamentos inconscientes de fuga e auto-defesa. Foi assim, em um desses momentos de suprema diminuição e fuga, que tentou a libertação.
A PROPOSTA
Foi direto:
-Quanto você quer?
A mulher lixava as unhas e, sem olhar:
-O que disse?
-Quanto você quer?
Ela parou, virou-se com cara de desdém e indagou novamente. Antes que terminasse, ouviu:
-Quanto você quer para se deitar comigo?
(Aqui o marido tremeu. Queria fugir. Mas foi forte. Sacrificou-se interiormente e
sentiu-se menor, menos importante e menos imponente do que era). Travou a mandíbula, mas não evitou a gargalhada infernal da esposa. E a resposta cortante:
-Com você eu transo por obrigação de esposa, e é bom que saiba: se dependesse da minha vontade, com você eu não transaria nem por dinheiro.
Foi ríspida porque se sentiu ofendida. Jamais brigaram.
Jamais discutiram. Mas ser chamada de puta dentro da própria casa, ela não podia
permitir.
A VOCAÇÃO
Fechou o zíper da mala e olhou, pela última vez, o quarto.
A vocação e o profissionalismo falavam mais alto. Teria sido egoísta? Ou teria sido injusta consigo mesma se sacrificasse a sua vocação para fazer um só homem feliz? Partiu sem deixar bilhete.
Quando o marido chegou, nada fez, até porque nada podia ser feito. Sabia-se só. O que fazer, se, não escolhendo a paixão, esta foi por alguém que não sabe amar? Pensava e compreendia. Amava tanto que perdoou. E desejou a felicidade que só os anjos sabem dar, ainda que em outros lençóis.
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
Trilha sonora

Ela chorou segundos depois do orgasmo, com a cabeça entre as mãos e apertando os lábios grossos e cansados de amar. Choro de criança repreendida, ao ver-se sem saída e com vontade de fazer o contrário do que aconselha a razão. Começa assim o drama de uma adúltera principiante, entregue ao próprio desejo como suicida obstinado. O primeiro suspiro empurrou a lágrima no precipício da pele morena. Nada perguntei pois tinha certeza de que ouviria uma explicação. "Eu não presto. Eu traí. Não é certo o que fizemos." Foi tudo o que disse. "Por que se martiriza assim? Muitos dariam o mundo para tê-la como amante e mulher. “Eu saberia estar em paz ao seu lado." Foi tudo o que falei, com a promessa de que eram palavras sinceras.
Algumas mulheres não nasceram para a fidelidade, mas com a sina das amantes - o que não significa que sejam pecadoras. Essas mulheres apenas possuem armas poderosas, com as quais são capazes de derrubar imperadores, dinamitar ditaduras, rasgar fardas imponentes, conquistar ruas, quarteirões, bairros, cidades, países, mundos e, por fim, destruir lares. Mas, definitivamente, não era o caso dela, menina crescida que atingiu a maioridade e descobriu prazeres longe de casa. Humilhou-se em prantos ao julgar-se a pior das espécies, sem ao menos dar valor aos seus instintos.
Ela gostava do Chico. É tudo que posso afirmar de mente aberta, sem a certeza da dúvida. Eu não tivera, até então, a experiência de tocar uma mulher ouvindo, ao mesmo tempo, as proezas da Geni. Não havia fornicado sobre a trilha sonora do poeta de voz esquisita. A verdade é que o poeta ajudou-me sem querer.
Os versos e a música me proporcionaram uma noite de rei. Eu não sei dizer se acompanhei o ritmo de “Samba do avião”, não calculei os movimentos a tal ponto. Não arriscarei também me rebaixar ao tom de “Construção”, naquela levada monótona que os amantes não podem ter, só os poetas, eles, sim.
Houve momentos em que me confundia com o personagem da canção e, inevitavelmente, sentia vergonha, o que me tirava a concentração. Respirava fundo, pensava no silêncio e anulava, assim, os efeitos melódicos.
MPB, definitivamente, não combina com cama. Não conseguirei explicar - de música pouco ou nada sei. Pensei em trocar o cd por outro, Louis Armstrong, talvez. Foi quando me lembrei de Serge. Gainsbourg seria perfeito. Não haveria trilha sonora mais apropriada. Há nesta obra requinte, qualidade musical, bons arranjos e vozes sedutoras. Gainsbourg está para o amor como a criança para o colo da mãe.
Concentrei-me no ato, esquecendo assim a trilha e o cenário. De nada valem grandes produções se não houver suor, lágrimas, sofrimento, víscera.
Em tempo: também gosto do Chico. Nada tenho a reclamar do episódio, e acrescento sem ensaiar que foi uma noite brilhante, sonho de consumo de marmanjos saciados, púberes, senis e afins. Mas, MPB, definitivamente, não combina com cama.
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
Indicação
Assinar:
Postagens (Atom)
