Quarta-feira, 15 de Outubro de 2008

Na vida e na morte - uma reflexão sobre o egoísmo


O quarto não permitia a presença da luz do sol que teimava em entrar, espremida, pelas frestas da janela. Havia apenas a mesa de cedro, pesada, antiga, densa. Tronco esculpido por mãos que não existem mais. Ao pé da mesa, o corpo quase inanimado. Um corpo amado.

A mulher aparentava vinte e poucos anos. Cabelos finos, louros, igualados em comprimento, altura da nuca. Estava nua, deitada de lado, punhos algemados, pés amarrados. Em um dos cantos, um pequeno recipiente com água, dois pratos sujos, garfo e faca. Acabara de receber o jantar. Já estava na hora de seu amor passar para recolher a louça suja. Funcionava assim mesmo. A porta ficava sempre trancada. Só era aberta para passar o alimento, recolher pratos e para mais um único tipo de exercício: o coito.


As carnes se batiam duas vezes por dia. A mulher tinha direito a um banho depois de cada relação. Era a prisioneira do amor. Um amor louco, possessivo, doentio. O amante insano sentia prazer ao saber que sua mulher era mais do que apenas mulher. Era um objeto que ficava preso numa caixinha de surpresas, sempre disposto a servi-lo sem pudor nem temores. A mulher amada não pode existir para o mundo, pensava o amante. É criação de mentes românticas, envaidecidas por desejos e necessidades. Deve ser inviolável, apenas para uso próprio. Um simples olhar pode significar profanação. Atentado violento contra a carne sagrada. Sabia-se egoísta ao extremo. Logo, chegava à conclusão de que, quem ama, não divide. Mas ele não poderia enfrentar, para sempre, a tudo e a todos. Muito menos o destino.


As reviravoltas do tempo se encarregaram de fazer justiça. A vida de sua prisioneira fora ceifada. Mas a morte dela passou a fazer parte da vida dele. Morrera de depressão profunda. O carrasco chorou pela primeira vez. Mas o seu individualismo era forte demais para abandonar o seu eterno e doentio amor.


Ele negou o cadáver à terra e o manteve preservado no mesmo quarto. O doente passou a transar ali mesmo, com o corpo frio e decomposto. Passou os últimos dias assim, até se matar. Nem assim foram separados. Algemou as mãos dele com as dela.

Sexta-feira, 3 de Outubro de 2008

Amor bandido


Bam! Bam! Dois tiros. O gerente do banco estava estirado no chão, dois buracos no corpo e arfando; o sangue manchou o tapete da salinha. Os bandidos levaram o malote recheado com grana viva, e saíram aos pulos sobre um mar de gente amedrontada com as mãos na cabeça. O mais pesado pisou no pescoço de uma aposentada que suava frio com a sombrinha e a bolsa debaixo do braço.
Não existem níveis de maldade em momentos assim. Entraram no carro e se meteram numa vicinal que levava a cidade a um distrito perto dali. Dois homens e três mulheres. Malva era uma delas, tinha cara de bandida. Sentia-se excitada, em perigo. Era linda, levava no rosto a malícia necessária para fazer um homem tremer. Saíra da agência bancária com as entranhas suadas de prazer. Mal entrou na perua e pulou no colo do chefe da quadrilha.
O chefe da quadrilha tinha uma barriga grande e pernas finas, apareciam os vasos sanguíneos nas juntas do joelho. Fumava maconha a granel, e era o que fazia quando viu Malva depositar as ancas sobre suas coxas.
-Sua cadela vagabunda, saia de cima de mim.
-Vai me dizer que você não gosta? Você nunca me tratou assim!
-Não é hora para isso...
-Broxa!
-Não me chame de broxa.
-Broxa! Broxa!
-Você não me excita o suficiente, querida. (Respirou fundo e baixou o zíper)
Prosseguiu:-Olha, está mole! Está mole! Tá vendo?
Malva chorou e levou uma bofetada em seguida. Foi muda ao esconderijo.
A quadrilha sentada à mesa, as montanhas de dinheiro saltavam aos olhos. Os homens fizeram sua parte. Bebiam cerveja e fumavam para contar o dinheiro. As duas bandidas faziam as unhas do pé, só de calcinha e camiseta esgarçada. Malva confiava à companheira o desejo de liquidar o chefe barrigudo. Não podia suportar a idéia de ser esnobada por um homem dessa estirpe. Planejava um ataque irreversível. A amiga ouvia tudo com uma cara séria e impassível, uma expressão de quem sabia da gravidade da situação e fingia não levar a sério.
Uma voz soou da mesa da dinheirama.
-O que as cadelas estão tramando? Não estão contentes com a féria do dia?
Em coro:-Estamos.
-O que falta para vocês?
Malva:
-Amor.
A conversa terminou assim. Sem conclusão. Mas os planos de Malva estavam traçados, concluídos. Esperaria o barrigudo dormir para colocá-los em prática. Malva foi dormir suja, sem banho, cheirava a fumo e cachaça. Continuava bela. Deitou-se ao lado do chefão e começou a acariciá-lo. Ela mexia num corpo que não demonstrava sinal de vida. O ladrão estava exausto. Mesmo assim ela montou e conseguiu o que queria. O gordo amorfo nem percebeu. A mulher desceu com nojo e menosprezo. Ao se lavar, o homem disse, de olhos fechados, sem se mover:
-Foi a última vez que tocou em mim. Não suporto mais o seu cheiro, a sua voz e o barulho que faz quando goza.
Foram presos no dia seguinte, numa batida policial. Todos presos. Os homens para um lado, as mulheres para outro. O barrigudo estava certo. Nunca mais seria tocado por Malva. Ela, por sua vez, não conseguiu matar o chefe.
Trinta anos de reclusão. Trinta anos sem contato. Trinta anos mais velhos. Malva perdera boa parte de sua beleza; agora sofria os efeitos da gravidade. Tudo mirava para baixo. O ex-chefe barrigudo, que já tinha tudo mirado para baixo, ganhara peso e menos disposição. Eram velhos para assaltar banco; cansados para fugir da polícia.
A mulher pode esquecer muitas coisas, menos o desprezo. Esse sentimento está para a mulher como a água para o fogo; a vida para a morte; a sanidade para a loucura. Malva sofria desse mal. Não havia cura. Procurou o ex-chefe da quadrilha em todos os becos possíves até que, certo dia, passou em frente a um asilo e reconheceu: sim, era ele. Definhava numa cadeira de balanço (e ainda fumava maconha). Ela não pensou duas vezes. Atacou o senil com várias espetadas acompanhada por uma ironia descabida.Usava a mesma faca que, quase quarenta anos antes, ganhara do chefe. Descarregou o menosprezo em forma de fúria. Matou o velho. -Queime no inferno, meu senhor. Foi o que ela disse.
Ele, antes do suspiro final, entre soluços e solavancos:-Desculpe por menosprezá-la. É que jamais deveria ter-lhe tocado...filha minha.E Malva sucumbiu. No desespero, lavou-se no sangue de seu pai depois da facada certeira que dera no próprio coração. Desta vez não suou nas entrepernas.

Quarta-feira, 13 de Agosto de 2008

Acerto de contas




Foi assassinado enquanto fazia a barba, com a cara cheia de espuma. O ralo da pia sugou a água avermelhada, com flocos brancos e alguns pêlos pequeninos, recém-cortados. Estava nu, pois gostava de se barbear sem roupa e seguir direto para o banho. Na vitrola a voz era de Jim Morrison - This is the end... - trilha sonora ideal para o agressor irromper em fúria pelo apartamento e furar-lhe os tímpanos com uma agulha de tricô.
Sentiu um formigamento nos ouvidos, seguido por um grito alucinado de dor e pânico. Quando se virou para ficar de frente com o inimigo, a visão já estava ofuscada pela falta de sentidos. Uma das mãos ainda segurava o aparelho de barba, com a outra tentou puxar a agulha; a força já não era suficiente nem mesmo para piscar os olhos. O intestino descarregou no chão o conteúdo, por conta do relaxamento do esfíncter do corpo moribundo.
A VÍTIMA
Cipriano Verdi, 33 anos, homem de poucas palavras mas de muita ação. Bonito, galanteador, persuasivo. Um imitador inimitável dos grandes conquistadores da história. Adorava as mulheres casadas, encontrava nelas a maior atração de um homem na hora do coito: o pecado. A companheira nem precisava desempenhar um bom papel sobre o colchão, bastava se deitar com a aliança no dedo. Ele cumpria o serviço sem tirar os olhos da jóia. Interpretava esse comportamento feminino como o pior de um ser humano, e ficava excitado.
O ERRO
Verdi desligou o rádio do carro (gostava muito de música) e trancou a porta. Caminhou pelo estacionamento do subsolo até o elevador. Apagou o cigarro no cinzeiro, entrou a apertou o 5. No trajeto, esqueceu os problemas do dia e se concentrou na próxima tarefa. Ao chegar no quinto andar, bateu à porta e foi recebido com um longo e úmido beijo na boca. Mal chegaram ao quarto e a cópula já tinha sido consumada.
Foi no corredor, ao lado de um vaso de flores de plástico empoeiradas e encardidas. Ela ralou o joelho no carpete; ele queimou o cotovelo no atrito rápido com a parede. Beberam vinho, nada de cerveja, nem uísque. A cerveja amarra a boca, o uísque seca, o vinho perfuma. Verdi pensava assim. Embebedaram-se e dormiram ali mesmo, no chão, sem banho.
O marido viajara mas manteve acesa a luz que revelaria os vermes; a luz que traria a verdade à tona. A vida é feita de extremos... Um dia antes, gemendo de prazer. No seguinte, de dor.
A MANHÃ SEGUINTE (O DIA DO CRIME)
Cipriano beijou a testa da mulher. Antes de partir, olhou novamente o corpo que possuíra, sentiu-se como um caçador com um dos pés sobre a presa, como nos retratos de grandes expedições. Foi para o trabalho; teria um dia difícil, com muitos problemas e poucas soluções. Cansado, chegou em casa e relaxou. A primeira coisa que fez foi tirar a roupa e fazer a barba...
O PLANO
Por mais prevenida que uma pessoa possa ser, jamais consegue evitar as surpresas. As surpresas são, talvez, a mais provável verdade absoluta, assim como a morte. Acontecem sem avisar, chegam de repente e se despedem imediatamente, muitas vezes sem deixar rastros, estrelas cadentes em céu nebuloso. Mas esta surpresa se revelou de maneira ainda mais devastadora. A viagem não existiu, o marido não viajou.
Na noite passada pernoitou fora de casa e se meteu numa pensão de quinta. Mas fez de tudo para conseguir enxergar o que aconteceria dentro da própria casa. Minara todo o apartamento com microcâmeras. Um desses olhos eletrônicos estava instalado no vaso de flores de plástico encardidas. As flores que decoraram a cena do amor proibido. E dormiu tranquilo; um sono profundo e confortável. Despertou e correu para casa.
A mulher foi às compras de supermercado. Recolheu as câmeras e assistiu à fita, imagens inéditas porém nem tão inesperadas. Esperou o retorno da esposa. Ela foi ao encontro dele com um beijo e palavras de saudades. Palavras, que ele fez força para engolir, sentindo o amargo do ódio na garganta. Fez amor com ela e, ao terminar cuspiu no rosto branco e delicado. Arrumou as malas e foi embora para nunca mais voltar.
O DESESPERO
A mulher estava no limbo, tamanho desprezo e desacato. Queria fugir, teve vontade de se cortar e, ao pensar nisso, correu para a caixa de remédios. Aprendera bem: tomou Valium com vinho, pois perfuma o hálito. Saiu de casa com um só rumo. Desabafar com o homem que a fizera feliz horas antes. Nada mais restava ao corpo que tremia de rancor. Quando chegou ao estacionamento do prédio, se escondeu rapidamente atrás do primeiro carro estacionado por lá. Apenas ouviu a conversa do marido e de Cipriano. O que eles combinaram dera certo. Cipriano Verdi recebeu o cheque e se despediu do marido traído. Foi uma das tarefas do dia tenso que teria, a última seria fazer a barba e ser assassinado com a agulha de tricô da mulher infiel.

Terça-feira, 5 de Agosto de 2008

Palavras

Folhas,
leaves, leves, levadas pelo vento.
Troncos,
tristes, truncados, travados ao relento.
Vento,
veloz, vetor, violento sem ser visto.

Alma,
âmago, amiga, alada sem ser vista.
Corpo,
propriedade, casa, abrigo da vida.
Sexo,
suor, sentimento, sina dos amantes.

Quarta-feira, 16 de Julho de 2008

História de amor



Fizeram ali mesmo. O sexo dos anjos, o sexo dos amantes, o sexo dos pecadores. Um sexo com gosto de passado. Um sexo com a euforia das universidades. Um sexo com sabor de rebeldia. Um sexo jovem. Trinta anos ficaram para trás. Entre a despedida e o reencontro, a sensação de trinta segundos. Os olhos brilharam como na primeira vez. As vidas mudaram bastante.
Ele, cinquenta e dois anos, casado, dois filhos. A profissão lhe rendera posses e ótima posição social. Ela, cinquenta e um anos, casada, dois filhos. O primeiro, fruto de uma produção independente. As vidas mudaram bastante. Aos vinte e poucos anos, dois sonhadores perdidos nos corredores acadêmicos. Tinham sonhos parecidos. Tudo a ganhar. Nada a perder. As reviravoltas do tempo fizeram de dois namorados, efêmeros namorados, dois nostálgicos separados.
A despedida fora dura, seca, rápida. Um olhar a poucos metros, mais dois passos, outro olhar. Breve. Como destino, duas estradas diferentes. O reencontro, uma noite de autógrafos. Ela, escritora famosa, recebia as mais ilustres figuras intelectuais para a divulgação de sua nova obra. O tempo havia sido seu amante, e a poupara das marcas inexoráveis dos anos. Ele ganhara alguns fios brancos, que lhe ofereciam uma aparência sóbria, séria, cândida. Não haviam se visto, até o narrado momento. Será que se reconheceriam?

O garoto corria entre pernas de convidados, cortava a frente dos garçons equilibristas, pisava nas saias das damas, até se esbarrar na estrela da noite. A repreensão do pai foi imediata. Um olhar rígido para o menino e, ao retomar a visão do horizonte, o reencontro dos olhares. Ela e ela. Ele e ela. O passado e o futuro. Uma fusão de constrangimento e alegria. Segundos de nostalgia, de uma viagem meteórica trinta anos antes. Trinta anos em trinta segundos. E uma avaliação inevitável, inconsciente, do que o destino separara. A sensação, para ela, de que o menino poderia ser seu filho. A sensação, para ele, de que ela poderia ser a mãe da criança. Sem trocar uma só palavra, se desculparam pelo atropelo do menino, pela situação embaraçosa, e a mão autografou o novo exemplar: "Até algum dia, em algum lugar."
As duas linhas de vida se uniram por segundos. Foi como se tivessem se abraçado, se amado, se possuído de carne e espírito. Foi como um sexo adolescente sem ter sido. As linhas seguiram em frente, separadas. Infinitas, até se cansar.

Quinta-feira, 19 de Junho de 2008

Anne

Jovem linda, de seios fartos, coxas além do necessário para manter o corpo em pé; olhar de serpente, rápido e letal. Assim era Anne Mae. Migrara para o Brasil dez anos antes do ocorrido.

Anne saiu de uma boate, tarde da madrugada. Vestido curto, peça única. Nos pés, o sapato de salto alto realçava a panturrilha e a envergadura da coluna que terminava deliciosamente nos quadris. Naquela noite estava sozinha. Deixou as amigas e o pretendente que a cortejava no bar. A boca ainda estava manchada, de leve, pelo batom espalhado pelos beijos. Anne estava sendo vista por olhos afiados, miras de desejo. Mal chegou a abrir a porta do carro. Foi empurrada contra o capô, amordaçada e encapuzada. Foi colocada no porta-malas e sentiu em seguida as sacudidas provocadas pelo movimento. Não ouvia nada, além do motor. O silêncio torturava. O medo aumentava, ela sabia o que estava para acontecer, sentia-se na cadeira elétrica, à espera do choque fatal que escureceria o horizonte para sempre.

O carro parou. As sacudidas terminaram. O porta-malas se abriu e duas mãos grossas e sujas levantaram o corpo medroso. Três homens em volta de uma moça crescida, num lugar abandonado, ermo, tendo apenas o céu e as próprias consciências como testemunhas. A festa estava começando.

A CERTEZA

Anne tentou, sim, alimentar a esperança que lhe restava: escapar sem arranhões. Até o momento em que sentiu uma das mãos pecadoras subir pela coxa e alcançar a área que tantos já conheciam. Ela levava uma vida sexual ativa, porém nunca sentiu amor por alguém, tampouco amada. Pensou em chorar e gritar, mas o pânico lhe dava a noção clara de que o desespero era só dela e nada poderia acontecer em benefício próprio. O mundo lhe parecia uma casa estranha, da qual ela não fazia parte, não era conhecida por ninguém, nem mesmo por Deus.

A DOR

Percebeu a fúria do desejo em cada gesto de cada homem. Homens sem espírito, animais movidos apenas pela paixão, pela carne que os envolvia. O primeiro deu luz aos seios com um só puxão nas alças do vestido. Eles surgiram como pérolas aos olhos uivantes. O segundo baixou-lhe a calcinha minúscula e delicada até os pés. O terceiro jogou-se contra o corpo liso e fresco da vítima. Anne conhecia o máximo do prazer: o orgasmo. O máximo da dor, ainda desconhecido pelo homem, ela poderia ter agora. Sentia as estocadas fortes e descompassadas do estuprador. As lágrimas umedeciam o rosto delicado; a testa se contraía em rugas de pavor. O segundo ato foi ainda pior. Ela se agarrava a pequenas raízes do barranco próximo para não escorregar. A violência brutal a atormentava. Presa
mansa em boca de predador impiedoso. Como uma pomba nas garras de um guepardo. E, pela terceira vez, sentiu o drama da profanação. Ela já sangrava, desprovida da lubrificação natural que o prazer proporciona.

O AMOR

Assim como da semente seca que, de tanto irrigada brotou o fruto; Anne, a semente, tentou germinar. Como gostaria de estar curtindo aqueles momentos. Não haveria sofrimento. Enquanto os dois primeiros maníacos
descansavam no carro, o terceiro que ainda arfava sobre o corpo indefeso procurava chegar ao máximo. Anne relaxou. Procurou encontrar a beleza e a ternura nos gestos do silvícola. Era a sua única defesa: convencer-se de que tudo não passava de um contratempo que, mais tarde, seria esquecido.

Olhando fixamente nos olhos do homem, lançou:

-Eu te amo.

Movimentos imediatamente interrompidos.
Inconscientemente e displicentemente, algo lhe pareceu familiar. As mãos que a agrediam agora lhe davam segurança. Anne entregou-se por completo, de modo que o estuprador considerou-se estuprado. E as lembranças vinham; infância, escola, amigos, namorados, a primeira transa, o amante que a vida marginal roubara dela, na entrada da adolescência. Este homem que agora a deflorava, fora seu primeiro grande caso de amor. Tomado por sonhos e viagens alucinantes, deixou-se levar por um caminho sem volta. E, como em uma roda-gigante, eles se encontraram de novo, movidos por uma engrenagem infalível: a engrenagem do destino.

Quinta-feira, 15 de Maio de 2008

O céu e o inferno


Convento São Mateus, 4 horas da manhã. Um corpo vaga, sempre esquivo, pelos corredores escuros, olhar atento a qualquer movimentação. Na ponta dos pés descalços, ombros contraídos, a freira se move na velocidade das línguas de fogo. Os quartos estão apagados, janelas religiosamente fechadas, escudos contra os males da noite. Mas o mal está trancado ali. Do lado de dentro. Neste corpo que procura o que ainda não sabemos. Neste corpo que deseja. Na carne que se esconde debaixo da veste santa, escura, abençoada. Eu assisto a tudo, preciso afinal abrir uma sindicância para investigar suspeitas de má conduta. Eu sigo os seus passos como um predador atrás da presa. Atravesso passarelas intermináveis, pilares, e vejo lixeiras, e vejo bebedouros, e vejo portas e janelas, e vejo a escuridão, a luz distante, crucifixos, e vejo meus pés, um a um, fugindo deles mesmos, como se buscassem a vitória de ser o primeiro a chegar. 4 e quinze na madrugada. Sinto um calafrio. Quando percebo, o rosto se vira para trás, como se desconfiasse da perseguição. Atiro-me contra o primeiro poste que encontro. Já estamos do lado de fora do prédio. Não há mais corredores. Só a relva, úmida da noite. Continuamos nossa trajetória. Os pés perseguidos agora estão descalços; não podem deixar pistas de grama, barro, chão, quando voltar. O corpo se move mais lentamente. Vejo a vestimenta santa tremular no ar escuro da madrugada. Chega a uma porta. Bate. Olha para os lados. A porta se abre. O corpo entra. A freira entra. Avanço e encosto os lóbulos na madeira para tentar ouvir, encontro um vão na janela que se abre logo que tento percorrê-lo com o olho esquerdo. Quase sofro um acidente, mas meus movimentos ágeis funcionam bem, e me deito. Não sou visto. Mas passo a ver. Olho a roupa negra jogada num dos cantos da casa do zelador do convento. O que o pano escondia era um corpo maravilhoso, tentador, tenro, pronto para o mal. Cabelos louros de mulher da noite. Cabelos louros que atraem, traem, entristecem. Uma pele clara, leviana, bela. As nádegas mais lindas que uma freira e qualquer não-freira possa ter. Uma pele de 20 e poucos anos. Uma pele mal resolvida, perdida num convento. Pela primeira vez na vida vejo um corpo santo numa cama de núpcias. Um corpo preparado para servir a Deus, servindo ao Diabo. As carnes batendo forte, os suores da freira em mistura perfeita com os do porteiro. E os gemidos...Nunca esquecerei. O gemido do pecado é melhor. É mais profundo. É mais doído. Gemido sagrado. Atrás de mim estava o convento, as freiras dormindo à espera da missa matinal. Atrás de mim, o Céu. À minha frente, o Inferno. Ficaram lá por meia hora. Ela estava deitada, como santa, antes mesmo do dia amanhecer. Às 6 estava na missa. No dia seguinte, fora do convento. Tive que delatá-la. Hoje analiso as fotos daquela noite e sinto saudades. Saudades do que não toquei, do que não aproveitei. Saudades da freira que traiu Deus para ficar com o porteiro. Acho que isso é amor.