
Foi assassinado enquanto fazia a barba, com a cara cheia de espuma. O ralo da pia sugou a água avermelhada, com flocos brancos e alguns pêlos pequeninos, recém-cortados. Estava nu, pois gostava de se barbear sem roupa e seguir direto para o banho. Na vitrola a voz era de Jim Morrison - This is the end... - trilha sonora ideal para o agressor irromper em fúria pelo apartamento e furar-lhe os tímpanos com uma agulha de tricô.
Sentiu um formigamento nos ouvidos, seguido por um grito alucinado de dor e pânico. Quando se virou para ficar de frente com o inimigo, a visão já estava ofuscada pela falta de sentidos. Uma das mãos ainda segurava o aparelho de barba, com a outra tentou puxar a agulha; a força já não era suficiente nem mesmo para piscar os olhos. O intestino descarregou no chão o conteúdo, por conta do relaxamento do esfíncter do corpo moribundo.
A VÍTIMA
Cipriano Verdi, 33 anos, homem de poucas palavras mas de muita ação. Bonito, galanteador, persuasivo. Um imitador inimitável dos grandes conquistadores da história. Adorava as mulheres casadas, encontrava nelas a maior atração de um homem na hora do coito: o pecado. A companheira nem precisava desempenhar um bom papel sobre o colchão, bastava se deitar com a aliança no dedo. Ele cumpria o serviço sem tirar os olhos da jóia. Interpretava esse comportamento feminino como o pior de um ser humano, e ficava excitado.
O ERRO
Verdi desligou o rádio do carro (gostava muito de música) e trancou a porta. Caminhou pelo estacionamento do subsolo até o elevador. Apagou o cigarro no cinzeiro, entrou a apertou o 5. No trajeto, esqueceu os problemas do dia e se concentrou na próxima tarefa. Ao chegar no quinto andar, bateu à porta e foi recebido com um longo e úmido beijo na boca. Mal chegaram ao quarto e a cópula já tinha sido consumada.
Foi no corredor, ao lado de um vaso de flores de plástico empoeiradas e encardidas. Ela ralou o joelho no carpete; ele queimou o cotovelo no atrito rápido com a parede. Beberam vinho, nada de cerveja, nem uísque. A cerveja amarra a boca, o uísque seca, o vinho perfuma. Verdi pensava assim. Embebedaram-se e dormiram ali mesmo, no chão, sem banho.
O marido viajara mas manteve acesa a luz que revelaria os vermes; a luz que traria a verdade à tona. A vida é feita de extremos... Um dia antes, gemendo de prazer. No seguinte, de dor.
A MANHÃ SEGUINTE (O DIA DO CRIME)
Cipriano beijou a testa da mulher. Antes de partir, olhou novamente o corpo que possuíra, sentiu-se como um caçador com um dos pés sobre a presa, como nos retratos de grandes expedições. Foi para o trabalho; teria um dia difícil, com muitos problemas e poucas soluções. Cansado, chegou em casa e relaxou. A primeira coisa que fez foi tirar a roupa e fazer a barba...
O PLANO
Por mais prevenida que uma pessoa possa ser, jamais consegue evitar as surpresas. As surpresas são, talvez, a mais provável verdade absoluta, assim como a morte. Acontecem sem avisar, chegam de repente e se despedem imediatamente, muitas vezes sem deixar rastros, estrelas cadentes em céu nebuloso. Mas esta surpresa se revelou de maneira ainda mais devastadora. A viagem não existiu, o marido não viajou.
Na noite passada pernoitou fora de casa e se meteu numa pensão de quinta. Mas fez de tudo para conseguir enxergar o que aconteceria dentro da própria casa. Minara todo o apartamento com microcâmeras. Um desses olhos eletrônicos estava instalado no vaso de flores de plástico encardidas. As flores que decoraram a cena do amor proibido. E dormiu tranquilo; um sono profundo e confortável. Despertou e correu para casa.
A mulher foi às compras de supermercado. Recolheu as câmeras e assistiu à fita, imagens inéditas porém nem tão inesperadas. Esperou o retorno da esposa. Ela foi ao encontro dele com um beijo e palavras de saudades. Palavras, que ele fez força para engolir, sentindo o amargo do ódio na garganta. Fez amor com ela e, ao terminar cuspiu no rosto branco e delicado. Arrumou as malas e foi embora para nunca mais voltar.
O DESESPERO
A mulher estava no limbo, tamanho desprezo e desacato. Queria fugir, teve vontade de se cortar e, ao pensar nisso, correu para a caixa de remédios. Aprendera bem: tomou Valium com vinho, pois perfuma o hálito. Saiu de casa com um só rumo. Desabafar com o homem que a fizera feliz horas antes. Nada mais restava ao corpo que tremia de rancor. Quando chegou ao estacionamento do prédio, se escondeu rapidamente atrás do primeiro carro estacionado por lá. Apenas ouviu a conversa do marido e de Cipriano. O que eles combinaram dera certo. Cipriano Verdi recebeu o cheque e se despediu do marido traído. Foi uma das tarefas do dia tenso que teria, a última seria fazer a barba e ser assassinado com a agulha de tricô da mulher infiel.